“Carta aberta – aos que se importam”, escrita pelo Bacharel em violino pela EMUFMG, Elder Freitas

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“Após seis meses que voltei a tocar em casamentos na região do vale do aço, cheguei a conclusões nas quais eu já pensava quando morava em Belo Horizonte: a grande e maior parte dos grupos musicais – vulgos nominados Agencias – são amadores, irresponsáveis e sem ética profissional. Posso até dizer que são grandes prostíbulos musicais, nos quais os pobres noivos confiam um dos dias mais importantes de suas vidas.

Toquei por mais de três anos para grupos na cidade de Belo Horizonte, e não vou dizer que lá não aconteça esse tipo de coisa. Lá existe sim, grupos que não se importam muito com a qualidade do serviço prestado, mas comparando com o tamanho da região, a porcentagem desses grupos que eu conheci por lá é insignificante. Talvez por que a grande parte dos músicos sejam profissionais, vindos de conservatórios e escolas de nível superior, e que seu único trabalho seja relacionado a música.

No vale do aço o cenário é muito diferente. A maioria dos músicos pode ser classificada como “músicos de fim de semana”. São músicos que trabalham no comercio, na indústria – pois o que não falta aqui é indústria – e no serviço público. Músicos que tem seus afazeres remunerados durante a semana, e que “qualquer coisa que entrar” no fim de semana é lucro. Quando eu digo qualquer coisa, é qualquer coisa mesmo. Mas não se pode julga-los [os músicos] por isso. É compreensivo que alguém que receba 7, 8 ou 9 reais por hora de serviço, aceite um cachê de 90 ou 100 reais pra tocar num casamento, que dura por volta de uma hora. “Qualquer 100 reais que entrar”, é mais do que um dia de trabalho, cansativo e estressante.

O que me assusta é que muito dos músicos que se submetem a essa “prostituição musical”, são músicos bons, que mesmo não tendo frequentado um conservatório, são de grande qualidade técnica e expressiva. Aí eu me pergunto: não deveriam estes, que já tem seus próprios trabalhos, cobrar caro pelo “consumo” de seu horário de descanso?

Mas voltemos a falar dos grupos – ou agencias. A começar pelo nome, percebe-se uma diferença entre a região da capital e a do vale do aço. Na capital, conhecemos as formações de casamento por “grupos musicais”. No dicionário Aurélio, encontramos a seguinte definição para a palavra GRUPO: “Conjunto de pessoas que apresentam o mesmo comportamento e a mesma atitude, e com um objetivo comum que condiciona a coesão de seus membros.” Já a palavra AGENCIA, tem a seguinte definição: “Estabelecimento que se encarrega de trabalhos por conta de terceiros.”.

O fato de saber que terá um grupo se apresentando, já dá a entender que eles se conhecem, que trabalham juntos, que há interação entre eles. Já a ideia de que uma agencia está enviando músicos para tocar em determinado local, me passa a forte ideia de que há apenas um agenciamento de pessoas, desconhecidas entre si, que contarão com a sorte e com o talento que tem para que tudo dê certo – mas nem sempre o talento basta, quando falta entrosamento.

Quando voltei ao vale do aço para trabalhar como professor de violino do PRONATEC, recebi ligações e mensagens de várias dessas agencias, para prestar meus serviços de violinistas. Quando tocávamos no assunto referente a dinheiro – capital – seja quem foi que entrou em contato, falava: “Esse cachê não posso pagar, é fora da realidade do Vale do Aço.”

Mas eu posso garantir que não é. Não por relações financeiras. O vale do aço é uma região que dista apenas 200 km da capital Belo Horizonte. É uma região metropolitana, com cerca de 500 mil habitantes. O custo de vida aqui é muito parecido com o de Belo Horizonte – na verdade, coisas básicas para a sobrevivência (alimentos) chegam a custar 50% mais caro do valor praticado na capital. Há pessoas tão necessitadas financeiramente quanto na capital, mas há também aquela elite, diretores de hospitais, de empresas siderúrgicas, donos de grandes lojas e redes de mercado, etc. Aí eu me pergunto o porquê de insistirem que o cachê praticado em Belo Horizonte está fora realidade do vale do aço. Irei me casar no ano que vem – 2015 – e fiz orçamentos de fotografia, Buffet e ornamentação. Estranho é que todos esses tem a mesma faixa de preço – tanto em BH quanto aqui. Na verdade, estranho é uma ironia. Não é estranho. Isso prova o grande amadorismo das ditas agencias da região, que praticam um preço cerca de 200% mais barato que os preços da capital. Isso quando não se trata de viagem, pois, supondo que um musico precise se deslocar cerca de 200Km  para tocar num evento. Para aqueles que trabalham para um grupo de Belo Horizonte, o cachê dobra, para os que trabalham para agencias do interior, o cachê terá um acréscimo de 10% – no maximo e quando esse acréscimo existe.  Se os noivos de BH souberem o quão barato é contratar músicos daqui para tocar lá, quiserem mesmo economizar e não se importarem com a qualidade do serviço que na maior parte das vezes é ruim, eles viriam em peso ao interior contratar músicos para seus casamentos.

Este fim de semana, eu fiz dois eventos para um grupo aqui do vale do aço – esse eu posso chamar de grupo, não só porque eu tenho tocado com eles, mas porque, uma das coisas que esse grupo tem feito é não economizar para prestar um serviço de qualidade aos seus contratante. Variando um músico ou outro para os eventos que tem feito, mantendo assim o entrosamento do grupo. Fizemos dois eventos neste sábado, o mesmo grupo nos dois eventos, um serviço de alta qualidade. Conversando com os donos do grupo, cheguei a conclusão que é praticamente impossível esperar que o serviço de música da região seja valorizado. Em parte por culpa dos músicos, que não se dão o valor, mas do outro lado estão as tais agencias, irresponsáveis, que tem a coragem de, por exemplo, uma única dessas agencias fechar sete casamentos para o mesmo sábado, e para horários muito próximos, tornando impossível que o mesmo grupo se apresentasse em todas. Pior, tornando impossível estruturar um grupo de qualidade para todas, pois a escassez de violinistas para casamento na região está muito grande. Então, diante destes grupos irresponsáveis, os pouquíssimos grupos que tentam sustentar um padrão de excelência em serviços musicais, se tornam incapazes de praticar preços semelhantes aos de Belo Horizonte, tendo que se sujeitar a cobrar muito mais barato, mesmo mantendo um cachê mais justo para os seus músicos.

Estou muito decepcionado com a falta de ética de tantas agencias que apareceram na região, desde quando fui embora para BH, e de outras que já existiam e deveriam zelar pelo nome. Estou feliz com o grupo que tenho tocado e agradeço por confiarem no meu trabalho – mesmo que tenham que “tirar do próprio bolso”, como me disse o dono.  Não estou de “estojo fechado” para aqueles que precisam de um serviço de qualidade, mas não aceitarei me “prostituir”, para ganhar uns trocados no fim de semana. Não é orgulho e não acredito que seja arrogância minha. É respeito ao meu serviço, é respeito aos 4 anos de faculdade de música que fiz. É respeito ao meu diploma de bacharel em violino pela escola de música da UFMG e principalmente, é respeito aos meus colegas músicos, que trabalham e estudam, afim de a cada dia aperfeiçoarem-se tecnicamente, pois sabem que, como já disse Thomas Edison, talento é 1% inspiração e 99% expiração”.

Elder Freitas

Bacharel em violino pela EMUFMG

OMB P.18087

 

One comentário to “Carta aberta – aos que se importam”, escrita pelo Bacharel em violino pela EMUFMG, Elder Freitas

  • elder freitas  says:

    obrigado Silas pelo espaço. Deus te abençoe sempre.

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